Comunicação não violenta

Costumo dizer que durante a vida aprendemos e desaprendemos várias coisas, como andar, comer, nos comunicar. Havia alegria em cada passo dado, era uma vitória sustentar o corpo e seguir adiante, hoje andamos em correria, muitas vezes sequer sabendo para onde estamos seguindo e ir muito rápido na direção errada é muito custoso. Havia alegria e gratidão ao recebermos o alimento que nos nutria, hoje, mal percebemos o sabor e a quantidade, envoltos que estamos nas telas enquanto comemos. No princípio era o verbo, acho tão simbólica essa frase, todas as oportunidades que se pode criar com a palavra, mas hoje há um verdadeiro abismo entre pares. Quantas dificuldades existem porque não conseguimos nos expressar corretamente. Costumo dizer aos meus pacientes que todas as coisas precisam ser ditas, o que não falamos, engolimos e adoecemos, contudo, há sempre o tempo e o jeito. Todas as coisas precisam ser ditas no tempo certo e de modo adequado.

Em uma discussão, não vale a pena, ninguém ouve ninguém. Muitas discussões podem ser evitadas quando perdemos a necessidade de estarmos certos ou de nos defendermos, sim, a defesa é uma forma de ataque quando o outro não está aberto a explicações. Não precisamos iniciar uma discussão e nem nos manter nela. Aguarde as coisas se acalmarem, só assim o diálogo é possível.

Marshall Rosemberg em 1960 desenvolveu a comunicação não violenta (CNV), uma abordagem que promove diálogos, de uma maneira empática e voltada para conexão humana visando à resolução de conflitos. A julgar pela quantidade de discussões e pelas coisas mais torpes, penso que estamos usando pouco essa abordagem e aqui, a leitura na íntegra é indicada. Vou colocar abaixo algumas orientações e faço votos que passem a utilizá-la em todos os contextos. Conflitos e/ou agressões verbais surgem quando necessidades humanas (legítimas) são ignoradas ou foram mal expressadas. 

É preciso que haja consciência na comunicação, observe o fato ou comportamento sem julgamento, apenas descrevendo os fatos. Expresse sua emoção relacionada a situação. Reconheça a sua necessidade por trás dos sentimentos e faça solicitações claras

Um exemplo prático: isso nunca acontece, mas imagine que chegou em casa exausta após um dia de trabalho muito difícil e a casa está cheia de brinquedos espalhados e a pia cheia de louças, então, você começa a esbravejar:  que bagunça é essa? Tudo eu nessa casa! Eu não sou escrava de vocês etc. Usando a comunicação não violenta: Percebi que os brinquedos estão espalhados e a pia com louça desde ontem (só a expressão do fato, sem julgamento). Sinto-me sobrecarregada quando encontro a casa assim (reconhecimento do sentimento). Preciso de colaboração de vocês em algumas tarefas (necessidade explícita). Você poderia lavar a louça e você recolher os brinquedos após jantarmos? (pedido claro).

Outro exemplo: No trabalho, um colega não entregou um relatório (ou o fez incompleto), o que prejudica o andamento de sua atividade. Usando a comunicação não violenta: Notei que o relatório não foi entregue como combinado (só o fato sem julgamento). Fico frustrado porque dependo deste material para concluir a minha parte no projeto (reconhecimento do sentimento). É importante que todos da equipe possamos confiar uns nos outros (necessidade). Consegue rever/finalizá-lo hoje ou precisa de algum suporte? (pedido claro).

Em um relacionamento afetivo, está irritado(a) porque seu companheiro (a) não mandou mensagem a x dias, usando a comunicação não violenta:  Você não enviou mensagens como de costume, fiquei incomodada, pois para mim é sinal de cuidado. Avise-me antes quando não puder se comunicar.

O exercício contínuo de nomear sentimentos, necessidades e ter clareza sobre o que se espera fortalece o respeito e compreensão mútua, contribui para soluções colaborativas e relações mais harmônicas. A CNV é uma ferramenta para conexões saudáveis e autênticas, use-a sem moderação.